A ATUALIDADE DE RAMAZZINI, 300 ANOS DEPOIS
THE MODERNITY OF RAMAMAZZINI, AFTER 300 YEARS
René Mendes
Professor Titular do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena, 190 10o
andar. Belo Horizonte - MG CEP 30.3130-100
RESUMO
A propósito das comemorações dos 300 anos da primeira edição deu
clássico livro De Morbis Artificum Diatriba ("As Doenças dos
Trabalhadores"), publicada em Módena, Itália, em 1700, é feito um resumo
biográfico da vida de Bernardino Ramazzini (1633-1714), o "Pai da Medicina do
Trabalho".
Após a síntese biográfica, são mencionadas as principais
contribuições de Ramazzini, para o desenvolvimento da Medicina e da Saúde Pública a
serviço da saúde dos trabalhadores, concluindo-se pela extrema atualidade de suas
contribuições. Esta análise inclui: a preocupação e o compromisso com uma classe de
pessoas habitualmente esquecida e menosprezada pela Medicina; a visão de Ramazzini sobre
a determinação social da doença; as contribuições metodológicas de como abordar as
questões de saúde-doença dos trabalhadores (estudo da bibliografia disponível;
anamnese ocupacional; construção de perfís epidemiológicos de doença, incapacidade e
morte dos trabalhadores, segundo "profissão" ou "ocupação"); a
sistematização do estudo das doenças relacionadas com o trabalho; as inter-relações
entre as questões do trabalho e do meio-ambiente; e, a ênfase da prevenção primária,
entre outras valiosas contribuições.
Conclui-se estimulando a leitura e o estudo do livro de Ramazzini: sua
leitura é a melhor forma de conhecê-lo, e a adoção de seus múltiplos ensinamentos é
a melhor forma de homenageá-lo e de cultivar sua memória.
PALAVRAS-CHAVES:
Medicina do Trabalho, História, Ramazzini, História da Medicina do
Trabalho
SUMMARY
As part of the celebrations of the 300 years anniversary of the
first edition of the classic De Morbis Artificum Diatriba ("Diseases of
Workers"), published in Modena, Italy, in 1700, a biographic summary of Bernardino
Ramazzini (1633-1714) "The Father of Occupational Medicine" is
made.
After these brief biographic notes on Ramazzini, his main contributions
to the development of Medicine, Public Health and Workers Health are analyzed, by
pointing out the modernity of these issues, as well as the accurateness of
Ramazzinis perception and vision. So, the following contributions are described in
this paper: the commitment to the health needs of the working class, usually forgotten by
the medical doctors; Ramazzinis understanding of the "social determination of
diseases"; methodological contributions on how to approach properly occupational
health problems (study of available bibliography; occupational history; construction of
epidemiological profiles of morbidity, disability and mortality, according to
"occupation"); the systematization and criteria for the study of the nature and
grade of the work-relatedness of diseases; the inter-relationships between occupational
and environmental health issues; and finally, the emphasis on primary prevention of
work-related diseases.
We conclude that the best way to know Ramazzini is to reed and study
his classic book, and the best way to celebrate his memory is to adopt and follow his
lessons, still valuable and modern.
KEYWORDS:
Occupational Medicine, History, Ramazzini, History of Occupational Medicine
A ATUALIDADE DE RAMAZZINI, 300 ANOS DEPOIS
Um Pouco Sobre Sua Vida
No ano em que se comemoram os 300 anos do lançamento da primeira
edição da obra-prima de Bernardino Ramazzini (1633-1714), intitulada De Morbis
Artificum Diatriba, ao português elegantemente traduzida pelo Dr. Raimundo Estrela,
sob o título As Doenças dos Trabalhadores, torna-se extremamente oportuno
investigar, analisar e divulgar, um pouco mais, algumas facetas da vida e obra deste
Mestre da Medicina, muito mais como um exercício de inspiração, do que de erudição ou
História.
Na verdade, o estudo da vida e obra de Ramazzini não é inédito,
posto que centenas de estudiosos e pesquisadores da História da Medicina, no mundo
inteiro e no Brasil, têm se dedicado a este fascinante exercício, havendo muitos deles
publicado seus achados e reflexões, em revistas especializadas e na forma de livros sobre
História da Medicina, História da Medicina Social, História da Saúde Pública, ou
História da Medicina do Trabalho. Entre os historiadores da Medicina Social e Saúde
Pública, Henry Sigerist (1891-1957) e George Rosen (1910-1977) destacaram-se por suas
contribuições de abrangência universal, onde a obra de Ramazzini é tratada de forma
muito especial.
Entre nós, parece ter sido o Dr. Francisco Carneiro Nobre de Lacerda
Filho um dos primeiros a estudar, publicar e divulgar a vida e obra de Ramazzini, já nos
idos de 1940, e depois em 1956, em seu livro Homens, Saúde e Trabalho. É de 1956,
também, a contribuição do Dr. Bernardo Bedrikow, quando publicou texto sobre Ramazzini
- O Pai da Medicina do Trabalho, que por seu conteúdo e beleza permanece mais
atual que nunca. Mais tarde, o Dr. Raimundo Estrela, ao apresentar a tradução da
obra-prima de Ramazzini, ao português, sobre sua vida e obra se pronunciou, com a
erudição e o estilo, próprios de um fino escritor como é. Outrossim, é quase certo
que outros colegas também o tenham feito, em diferentes momentos e lugares, o que
reforça nossa tese sobre a inesgotabilidade desta fonte de inspiração para a
nossa vida e profissão.
Pois bem, o nosso biografado ilustre nasceu, na Itália, em Carpi, na
Emilia-Romagna, a 18 quilômetros de Módena, no dia 4 de outubro de 1633. Desenvolveu sua
formação escolar básica em escola jesuítica da mesma cidade, indo aos 19 anos para a
Universidade de Parma, a fim de completar sua formação em Filosofia. Cursou
posteriormente Medicina na mesma universidade, onde graduou-se em 21 de fevereiro de 1659,
portanto com pouco mais de 25 anos. Cabe lembrar que na Itália, desde o século XIII, os
estudos filosóficos de três anos de duração antecediam, obrigatoriamente, a formação
acadêmica e prática do médico.
Sentindo a necessidade de prosseguir seus estudos e ampliar sua
experiência prática, Ramazzini fixou-se por alguns anos em Roma, onde, acompanhado de
seu mestre Antonio Maria Rossi, trabalhou em diversos hospitais da cidade. Afirmam alguns
que, nesta primeira fase de sua vida profissional, Ramazzini teria também trabalhado
alguns anos nas comunidades de Canino e de Marta, na província de Viterbo.
Consta que Ramazzini, durante seus primeiros anos de prática
profissional, teria então adoecido, aparentemente por malária-quartã, com crises de
icterícia, o que o forçou a retornar à casa de seus pais, em Carpi.
Após seu casamento com Francesca Righi, com quem teve três filhos,
Ramazzini estabeleceu-se como médico prático, em Módena, onde, a partir de 1671,
exerceu a profissão em tempo integral, tendo adquirido grande reputação como médico e
cientista interessado em temas de Física e áreas afins. A fase de sua vida em Módena
vai de 1671 a 1700.
Na procura de cérebros privilegiados e brilhantes para formar os
quadros daquela novel Universidade de Módena, o Duque Francesco II dEste, em 1682,
convidou Ramazzini para lecionar na cadeira de Medicina Teórica, e depois de três anos,
nas cadeiras de Medicina Teórica e de Medicina Prática. Então com 49 anos, Ramazzini
permaneceu lecionando por longos 19 anos.Foi este, seguramente, o tempo de vida
profissional mais profícuo, época em que publicou regularmente inúmeras observações e
estudos em vários campos da Medicina e de outras ciências, tanto na forma de artigos
como na de livros.
Ramazzini começa a se tornar mais conhecido e reconhecido fora de sua
região e país, vindo, em 1690, a tornar-se membro da prestigiosa "Academia
Caesario-Leopoldina dos Curiosos da Natureza", em Viena, para a qual foi eleito, com
a idade de 57 anos. Nesse ambiente, foi-lhe atribuído o cognome de "Hipócrates
III", posto que lesse assiduamente Hipócrates em grego, e conhecesse sua vida e
obra, como poucos. Torna-se amigo e confrade de cientistas como Marcello Malpighi
(1628-1694), Giovvani Lancisi (1654-1720), Gottfried Leibniz (1646-1704) - entre outros -
com quem muitas vezes encontrou-se na Itália, mantendo, ademais, ativa correspondência
com muitos deles.
Nesta época, ano acadêmico de 1690/91, Ramazzini inicia no curso
médico de Módena, suas aulas sobre a matéria que denominou De Morbis
Artificum - as doenças dos trabalhadores. Suas observações e apontamentos de
aula, mais tarde constituidores de seu "diatriba" - tratado - que intititulou De
Morbis Artificum Diatriba, resultaram da amalgamação de uma sólida bagagem de
erudição na literatura histórica, filosófica e médica disponível - como se verá
adiante -, com as observações colhidas em visitas a locais de trabalho, e entrevistas
com trabalhadores.
Conforme relato feito pelo próprio Ramazzini, o despertar do seu
interesse pelas doenças dos trabalhadores e pela elaboração de um texto voltado para
este tema deu-se a partir da observação do trabalho dos "cloaqueiros", em sua
própria casa, em Módena. Esses trabalhadores tinham a tarefa de esvaziar as
"cloacas" ("fossas negras") que armazenavam fezes e outros dejetos,
como aliás ainda era feito rotineiramente, há até não muito tempo atrás, em diversas
cidades brasileiras, e excepcionalmente por trabalhadores de empresas de saneamento
básico.
Pois bem, demos a palavra ao nosso biografado ilustre: "observei
que um dos operários, naquele antro de Caronte, trabalhava açodadamente, ansioso por
terminar; apiedado de seu labor impróprio, interroguei-o por que trabalhava tão
afanosamente e não agia com menos pressa, para que não se cansasse demasiadamente, com o
excessivo esforço. Então, o miserável, levantando a vista e olhando-me desse antro,
respondeu: ninguém que não tenha experimentado poderá imaginar quanto custaria
permanecer neste lugar durante mais de quatro horas, pois ficaria cego. Depois que
ele saiu da cloaca, examinei seus olhos com atenção e os notei bastante inflamados e
enevoados; em seguida procurei saber que remédio os cloaqueiros usavam para essas
afecções, o qual respondeu-me que usaria o único remédio, que era ir imediatamente
para casa, fechar-se em quarto escuro, permanecendo até o dia seguinte, e banhando
constantemente os olhos com água morna, como único meio de aliviar a dor dos olhos.
Perguntei-lhe ainda se sofria de algum ardor na garganta e de certa dificuldade para
respirar, se doía a cabeça enquanto aquele aquele odor irritava as narinas, e se sentia
náuseas. Nada disso, respondeu ele, somente os olhos são atacados e se quizesse
prosseguir neste trabalho muito tempo, sem demora perderia a vista, como tem acontecido
aos outros. Assim, atendendo-me, cobriu os olhos com as mãos e seguiu para casa.
Depois observei muitos operários dessa classe, quase cegos ou cegos completamente,
mendigando pela cidade...."
Como bem destaca o Dr. Bernardo Bedrikow, em seu interessante estudo
sobre a vida e obra de Ramazzini, "a imagem do limpador de fossas não mais
abandonou o espírito curioso daquele médico (...). Interessado também pelas artes e
pela mecânica, visitou as pobres oficinas do tempo, e logo ficou impressionado com as
condições miseráveis dos trabalhadores."
Assim, afirmaria mais tarde Ramazzini: "enquanto exercia minha
profissão de médico, fiz freqüentes observações, pelo que resolví, no limite de
minhas forças, escrever um tratado sobre as doenças dos operários".
Reconhecia, porém, que "é evidente que em uma só cidade, em uma só região,
não se exercitam todas as artes, e, de acordo com os diferentes lugares, são também
diversos os ofícios que podem ocasionar várias doenças." Pedia, para tanto, a
indulgência dos leitores, que certamente o indulgenciaram...
Em 1700, ano da publicação em Módena, da primeira edição do De
Morbis Artificum Diatriba, o Senado da República de Veneza ofereceu a
Ramazzini a segunda Cadeira de Medicina Teórica, na Universidade de Pádua. Esta
Universidade, fundada em 1222, já gozava de elevado prestígio na Europa, tendo se
tornado, então, um dos maiores centros de ensino médico no mundo. Após 29 anos em
Módena, 19 dos quais como Professor de Medicina, Ramazzini considerou o convite como um
coroamento de sua carreira, e uma manifestação de consideração e estima, vindo a
aceitá-lo, já com seus 67 anos. O contrato oferecido era de seis anos, renováveis.
Com efeito, em 12 de dezembro de 1700, Ramazzini pronunciava sua aula
inaugural naquela tradicional e antiga Universidade, tendo escolhido como tema, o futuro
da Medicina no novo século (XVIII), à luz dos desenvolvimentos ocorridos no século
XVII. Poucos no mundo poderiam faze-lo com tão amplo horizonte filosófico, artístico,
histórico, literário e médico, como Ramazzini, na plenitude de uma vida tão rica e
diversificada.
Em 1706, Ramazzini foi convidado a também lecionar, como
"professor visitante" na Universidade de Veneza, onde poderia ministrar seus
cursos em qualquer época do ano. Aos 76 anos de idade, Ramazzini, embora em acelerado
progresso de sua doença ateroesclerótica crônica que já o debilitava (sofrera um
episódio agudo e grave, provavelmente um infarto do miocárdio, aos 69 anos) e o deixara
quase cego (desde os 70 anos começou a notar sério dano de sua visão), continuava a
aceitar novas e desafiantes tarefas, voltadas às mais distintas áreas da ciência e da
literatura.
Não parou nunca de trabalhar, de aprender e de ensinar, tendo sido
alcançado pela morte, da forma como certamente desejou morrer: na frente de seus alunos,
discípulos e colegas, ao tentar vestir a beca para iniciar mais uma aula, desfaleceu,
apoplético e já inconsciente, vindo a falecer no mesmo dia, a saber, 5 de novembro de
1714, portanto com a idade de 81 anos, um mês, e um dia. Foi enterrado numa das igrejas
de Pádua, mas em túmulo anônimo.
A Atualidade de Sua Obra
Visto este breve resumo, talvez seja este o momento oportuno para
evocar Georges Canguilhem, quando afirma que "a história de uma ciência não
deveria ser uma mera coleção de biografias e ainda menos um quadro cronológico adornado
de histórias. Tem de ser também uma história da formação, da deformação e da
retificação dos conceitos científicos." Assim, caberia perguntar, na parte
final destas breves "notas biográficas" sobre Ramazzini, quais teriam sido suas
principais contribuições para o desenvolvimento da Medicina e da Saúde voltadas para a
promoção, a proteção e a recuperação da saúde dos trabalhadores?
Entre as muitas e interessantes contribuições, tentaremos identificar
algumas que selecionamos para este breve intróito à sua obra, a propósito dos 300 anos
da publicação de De Morbis Artificum Diatriba.
Em primeiro lugar, a preocupação e o compromisso com uma classe de
pessoas habitualmente esquecida e menosprezada pela Medicina. O próprio Ramazzini
reconhece no prefácio de seu tratado, que "ninguém que eu saiba pôs o pé nesse
campo [doenças dos operários].(...) É, certamente um dever para com a mísera
condição de artesãos, cujo labor manual muitas vezes considerado vil e sórdido, é
contudo necessário e proporciona comodidades à sociedade humana. (...)". Com
esta sensibilidade e com erudição histórica invejável, Ramazzini entendera que "...os
governos bem constituídos têm criado leis para conseguirem um bom regime de trabalho,
pelo que é justo que a arte médica se movimente em favor daqueles que a jurisprudência
considera com tanta importância, e empenhe-se (...) em cuidar da saúde dos operários,
para que possam, com a segurança possível, praticar o ofício a que se destinaram."
Com efeito, praticou e ensinou Ramazzini que, "o médico que
vai atender a um paciente operário não deve se limitar a pôr a mão no pulso, com
pressa, assim que chegar, sem informar-se de suas condições; não delibere de pé sobre
o que convém ou não comvém fazer, como se não jogasse com a vida humana; deve
sentar-se, com a dignidade de um juíz, ainda que não seja em cadeira dourada, como em
casa de magnatas; sente-se mesmo num banco, examine o paciente com fisionomia alegre e
observe detidamente o que ele necessita dos seus conselhos médicos e dos seus cuidados
preciosos."
Em segundo lugar, destaca-se sua visão sobre a determinação social
da doença. Como bem assinala George Rosen, "Ramazzini estabeleceu ou insinuou
alguns dos elementos básicos do conceito de Medicina Social. Estes incluem a necessidade
do estudo das relações entre o estado de saúde de uma dada população e suas
condições de vida, que são determinadas pela sua posição social; os fatores
perniciosos que agem de uma forma particular ou com especial intensidade no grupo, por
causa de sua posição social; e os elementos que exercem uma influência deletéria sobre
a saúde e impedem o aperfeiçoamento do estado geral de bem-estar."
Em terceiro lugar, destaca-se a contribuição metodológica de
Ramazzini, para o exercício correto da Medicina, quando voltada às questões de saúde e
trabalho. Dito em outras palavras, como deve ser a abordagem dos problemas. Ramazzini
praticou e ensinou os passos corretos.
Começam eles pelo estudo da literatura existente. A erudição
bibliográfica de Ramazzini é impressionante, dificilmente superada por outro Mestre da
Medicina do Trabalho. A este propósito, Pericle di Pietro, em seu estudo Le Fonti
Bibliografiche Nella "De Morbis Artificum Diatriba" di Bernardino
Ramazzini, identificou e analisou a vasta bibliografia utilizada por Ramazzini,
relacionando em ordem alfabética os autores citados, e localizando a fonte exata da
citação feita, isto é, o nome da obra, o parágrafo e a página. Foram, então,
reconhecidos por di Pietro nada menos que 182 autores citados por Ramazzini, neste livro.
Foram também listadas as referências ou citações, que alcançam a impressionante cifra
de aproximadamente 540.
Os passos de abordagem utilizados e ensinados por Ramazzini seguem-se
pelas visitas ao local de trabalho e pelas entrevistas com trabalhadores. Aliás,
como antes visto, foi o impacto da observação do trabalho e a da conversa com o
trabalhador que levou Ramazzini a se dedicar ao tema das doenças dos trabalhadores, como
o fez. É verdade que, o que ele viu e ouviu caía sobre terra fértil, preparada,
própria da alma sensível para observar a condição humana - filósofo, amante das artes
e das letras, poeta e médico que era - não tardando, portanto, em germinar, florescer e
frutificar através da obra e da vida de pessoa tão irrequieta e atuante quanto o nosso
biografado.
Mais tarde, com a sistematização de seus estudos sobre as doenças
dos trabalhadores, Ramazzini pode afirmar com a autoridade dos verdadeiros mestres: "Eu,
quanto pude, fiz o que estava ao meu alcance, e não me considerei diminuído visitando,
de quando em quando, sujas oficinas a fim de observar segredos da arte mecânica. (...)
Das oficinas dos artífices, portanto, que são antes escolas de onde saí mais
instruído, tudo fiz para descobrir o que melhor poderia satisfazer o paladar dos
curiosos, mas, sobretudo, o que é mais importante, saber aquilo que se pode sugerir de
prescrições médicas preventivas ou curativas, contra as doenças dos operários."
À abordagem clínico-individual, cujos fundamentos foram ensinados por
Hipócrates (460-375 a.C.), Ramazzini agregou a prática da história ou anamnese
ocupacional. Assim, ensinou ele, "um médico que atende um doente deve
informar-se de muita coisa a seu respeito pelo próprio e por seus acompanhantes (...). A
estas interrogações devia acrescentar-se outra: e que arte exerce?. Tal
pergunta considero oportuno e mesmo necessário lembrar ao médico que trata um homem do
povo, que dela se vale chegar às causas ocasionais do mal, a qual quase nunca é posta em
prática, ainda que o médico a conheça. Entretanto, se a houvesse observado, poderia
obter uma cura mais feliz."
Ampliando a abordagem clínico-individual, Ramazzini introduziu,
também, a análise coletiva ou epidemiológica, categorizando-a segundo ocupação
ou profissão - cerca de 55 - o que lhe permitiu construir e analisar "perfís
epidemiológicos" de adoecimento, incapacidade ou morte, como até então não
feitos. Com justiça, portanto, Ramazzini é também respeitado pela Epidemiologia, por
haver introduzido esta categoria de análise, no estudo da distribuição da doença.
Uma quarta área em que Ramazzini deixou sua indelével contribuição
foi a da sistematização e classificação das doenças segundo a natureza e o grau de
nexo com o trabalho. Com efeito, ao descrever as "doenças dos mineiros"
(capítulo I de seu livro), Ramazzini entendeu que "... o múltiplo e variado
campo semeado de doenças para aqueles que necessitam ganhar salário e, portanto, terão
de sofrer males terríveis em conseqüência do ofício que exercem, prolifera, (...)
devido a duas causas principais: a primeira, e a a mais importante, é a natureza nociva
da substância manipulada, o que pode produzir doenças especiais pelas exalações
danosas, e poeiras irritantes que afetam o organismo humano; a segunda é a violência que
se faz à estrutura natural da máquina vital, com posições forçadas e inadequadas do
corpo, o que pouco a pouco pode produzir grave enfermidade.". A propósito
das "doenças dos que trabalham em pé" (capítulo XXIX de seu livro), assim se
expressa Ramazzini: "... até agora falei daqueles artífices que contraem
doenças em virtude da nocividade da matéria manipulada; agrada-me, aqui, tratar de
outros operários que por outras causas, como sejam a posição dos membros, dos
movimentos corporais inadequados, que, enquanto trabalham, apresentam distúrbios
mórbidos, tais como os operários que passam o dia de pé, sentados, inclinados,
encurvados, correndo, andando a cavalo ou fatigando seu corpo por qualuer outra forma.".
De fato, deste critério de classificação empírica utilizado por
Ramazzini, é possível pinçar as bases para uma sistematização da Patologia do
Trabalho, onde, no primeiro grupo estariam as "doenças profissionais" ou
"tecnopatias", e no segundo, as "doenças adquiridas pelas condições
especiais em que o trabalho é realizado", ou as "mesopatias" -
classificação até hoje utilizada para fins médico-legais e previdenciários em muitos
países, inclusive no Brasil.
Muitas outras contribuições poderiam ser aqui identificadas, tais
como sua visão das interrelações entre a Patologia do Trabalho e o Meio-Ambiente,
quando estuda as "doenças dos químicos" (capítulo IV de seu livro), e a ênfase
na prevenção primária das doenças dos trabalhadores, o que ele faz no interior de
inúmeros capítulos de seu livro. Ainda, é no estudo das "doenças dos
químicos" que ele descreve a utilização potencial de registros de óbito para o
estudo dos impactos da poluição ambiental sobre a saúde das comunidades - estratégia
metodológica que até hoje se utiliza.
Não havendo mais espaço para prosseguirmos, concluímos com as
palavras do historiador da Medicina, Henry Sigerist, quando afirmou que "este
livro de Ramazzini significa para a história das doenças do trabalho o que o livro de
Vesalius significa para a Anatomia, ou o de Harvey para a Fisiologia, ou o de Morgani para
a Patologia." Sua leitura é a melhor forma de conhecer Bernardino Ramazzini, e a
adoção de seus múltiplos ensinamentos é a melhor forma de homenageá-lo e de cultivar
a sua memória.
Bibliografia
ANÔNIMO - Tribute to Bernardino Ramazzini. International Network
for the History of Occupational and Environmental Prevention -INHOEP - Letter,
5 March 2000, p. 1-2.
BEDRIKOW, B. - Ramazzini - O Pai da Medicina do Trabalho. CIPA
Jornal, 7(74):2-3, 1956.
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RAMAZZINI, B. As Doenças dos Trabalhadores. 2a. ed. São Paulo,
Fundacentro, 1999.
FRANCO, G. - Ramazzini and workershealth. Lancet, 354:860,
1999.
MENDES, R. - Aspectos históricos da Patologia do Trabalho. In: MENDES,
R. (Ed.) - Patologia do Trabalho. Rio de Janeiro, Atheneu, 1995. p. 3-31.
Di PIETRO, P. - Bernardino Ramazzini. The Treatise on the Diseases of
Workers. International Network for the History of Occupational and Environmental
Prevention -INHOEP - Letter, 5 March 2000, p. 2-4.
Di PIETRO, P. Le fonti bibliografiche nella "De Morbis Artificum
Diatriba" di Bernardino Ramazzini. [Artigo publicado em revista especializada, cuja
fotocópia não identifica seu título e data, p. 95 a 114].
ROSEN, G. - Uma História da Saúde Pública. São Paulo,
Editora UNESP/HUCITEC/ ABRASCO. [trad. Marcos Fernando da Silva Moreira].
SIGERIST, H.E. - Historical background of industrial and occupational
diseases. Bulletin of the New York Academy of Medicine, 12(1):597-609, 1936.
WRIGHT, W.C. - Introduction. In: RAMAZZINI, B. - Diseases of
Workers. Thunder Bay, Canada, OH&S Press, 1993. p. 1-34. [Translated by Wilmer
Cave Wright, 1940]

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